Desnoite

Posted in Uncategorized on março 13, 2008 by rbressane


O que está fora, sou.

Meu rosto é meu formão.
Braços, bocas, de outros – se os houve – meu caráter.
Os livros lado a lado na estante
nada mais que o dia-a-dia em que me intacto.
Sou eu quem realiza destas pétalas o cheiro
cortado e medido sobre a mesa com régua de luz mínima.

A alma acabou, meu caro amigo:
o que há são só distantes objetos
moldando a fundo os segredos
das linhas da palma da nossa mão.

Coluna dos haveres

Posted in Uncategorized on março 13, 2008 by rbressane


Habilidades para tanto eu não tenho –
ser dono de uma coisa, duma cidade, tantos habitantes.
Agregar ao sangue o mangue volátil das substâncias: haurir,
do outro, até a hemorragia.
Sou, portanto, um herege no supermercado.
Indissolúvel, e, ao mesmo tempo, impossível à hierarquia.
Homiziado, por leões de plástico cercado,
esculpido ao pó no meio da horda,
humildemente
só me sobra o senso de humor.

Beber vinho

Posted in Uncategorized on março 13, 2008 by rbressane


Beber vinho não como se fosse somente
beijar a mulher pela última vez,
arrancar o coração do carrasco,
fazer o gol do campeonato,
abandonar o deserto,
erguer altares,
ser.

Beber vinho como se fosse somente
beber vinho.

Memória à meia-noite

Posted in Uncategorized on março 13, 2008 by rbressane


Rochedos em mim se hospedam
porém seus nomes e profissões se apagam
do livro negro, lambidos por ondas todo o tempo.

Sou uma estátua de sal
derretida entre bits e ritmos sísmicos
como se qualquer dia fosse domingo.

Sou nomes que perdem faces
e faces que perdem nomes
[e então tudo fica misterioso].

Tempo agora
para sempre.

Sem nervos –
oceanos.

Quê?

Passado e proveito

Posted in Uncategorized on março 13, 2008 by rbressane

A insônia martelava nos ouvidos
litros de duro sangue, resoluto
e frio. Pensava nos caminhos
das formigas e, sim, no luto
dos elefantes; de algum lugar
em sua mente-almanaque vinham
os dados de araque: se é salutar
aos olhos comer formigas, Mnemosine
habita, plena, o couro dos paquidermes.

A insônia martelava nos miolos,
a insônia mastigava-lhe a derme.

Resolveu arrancar e comer os olhos.

Soneto em espiral

Posted in Uncategorized on março 13, 2008 by rbressane


[. Por que isso – um parafuso espanado?
imagem tola, a que não se louva e que
não ilumina, de objeto abjeto, contato
sem cola; ego cego, sem nem porquê;

premido aqui pra dentro da parede –
num tijolo raro, corroído, morada
de bichos rudes –, as espirais tentam
agarrar-se, mas lisas, com nojo e raiva,

girando falso – carne-esponja que retém
ferramenta, ferro e fenda a um só rangir;
de fora vêm mil empurrões, vãos, porém:

fora o mundo é falso feito o escondido
e na vertigem desta fé vil me convém
girangirar até outro lado] o céu perdido

Noves fora

Posted in Uncategorized on março 13, 2008 by rbressane


Já desisti de aprender uma porção de coisas
por falta de espaço no armário e no mausoléu da família.
Sei que jamais vou marcar um gol numa final de Copa do Mundo.
Talvez em Vênus nunca pise.
A existência da aura, dos universos paralelos e da terceira lei da termodinâmica
são fatos a mim já proibidos.
Quase não há tempo para perguntas.
Resolvi que fiquei burro.
Bom mesmo é nascer.