Soneto religioso em dó menor escrito nas últimas semanas


O pôr-do-sol hoje esteve particularmente avermelhado e veio muito antes do previsto.
Nos Estados Unidos, um garoto de sete anos matou com onze tiros seu irmão de seis.
Um amigo me contou que foi acometido pela síndrome do pânico nas ruas de Madri.
Achei um anticoncepcional que uma ex-namorada usava na caixa de correio.

De repente, por um mês a juventude paulistana é transtornada por uma seca de maconha.
No Paquistão detonaram cinco bombas atômicas em resposta a cinco explosões na Índia.
Na esquina, uma velha de longos cabelos brancos grita que está indo chamar a Interpol.
A empregada costuma voltar os pingüins da geladeira para a parede – como de castigo.

Ultimamente, em meus sonhos têm surgido as pessoas com quem trabalho.
Em dois dias, dois amigos de duas amigas minhas se suicidaram sem motivo.
El Niño, no sertão de Pernambuco, faz as pessoas comerem farinha com calango.

O faxineiro canta “glória, aleluia” enquanto limpa as latrinas da empresa.
Outra noite, num bar, não reconheci uma menina com quem tinha transado.
Outro dia, ao espelho, tive um susto – por um segundo, pareceu não ser eu.

Deixe uma resposta