Poema de Natal


Sob a ponte, rôo a ponta de um lápis triste – triste, pois é o último.
No bolso, um envelope a mim destinado com letra forte,
com o entusiasmo com que se mata um deus.
Não saberão, os carros voando sobre minha cabeça,
da resposta de meu lápis:
quem dirige só olha à frente, através jamais.
Hoje é Natal e esta carta recebi hoje –
o que não faz diferença. Meu lápis não crê
nem em nascimentos de deuses nem nos desastres do correio.
Pois perante o eterno não existem crimes.
Entre os lábios a língua passeia – gosto de grafite e madeira – mas
não é de desejo que a boca enfeita seu céu.
E sim de medo. Um medo desde o fim.
Fortuna: minha fama não renderia nem tira de jornal.
E não me sinto triste – assim, de destinatário a remetente.
Assim é que – sob a ponte – a palavra de grafite e madeira brusca busca o papel
no que faz o lápis quebrar a sua ponta.

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