Nele, o oco esbarra no deveras
Era homem muito desigual. Bonito: feio, até. Não fazia por mal. Quando pequeno, usava o ralador de queijo como elmo, a faca de rocambole de espada e por cavalo o rodo, em valente cruzada no graal do chocolate perdido. Tornou-se professor; e como só se vestia de preto, a roupa sempre suja de branco giz. [Meu corpo, um relógio atrasado – no intervalo de dois goles confessava ao garçom mudo, único ombro amigo [até porque o ombro esquerdo o perdera, obra de bala perdida].] Carrega sua mágoa a todos os lugares; refere-se a ela como “minha bichinha”: trata-se de animal de pequeno corpo e pescoço muito comprido, os olhos gigantes e sempre abertos, de peixe, pele branca-manchada, feito cor de ovo goro. Um lápis muito bem apontado – ali, para ele, o início de toda alma reta. Mas os lápis viviam caindo de sua mão e se quebrando. Mas a mágoa vivia fugindo de seu bolso sendo quase atropelada pelos carros. Pois ele vagava sempre no lado obscuro das santidades. Assim, só de piada um anti-herético. Roía somente as unhas da mão esquerda porque ambicionava um dia ainda tornar-se puro. [Às vezes, sentia medo – revelava-me –: a sensação como ter no esôfago um helicóptero.] Sua pior lembrança: a professora, no grupo escolar, por castigo bateu a régua em sua palma direita – a régua se quebrou e sua mãe teve de pagar uma nova à escola. [Há muito não o vejo. Mas dizem que ele não morreu. Desencanou.]